sexta-feira, 20 de maio de 2011

NOVA (IN)OPORTUNIDADE

Texto publicado hoje no Diário Económico e que vem bastante a propósito, dados os bate bocas que o tema tem gerado. Transcrevo-o com a devida vénia. José Pinto da Silva

Aliás, não está sequer preparado para fazer uma campanha eleitoral digna desse nome. Os dislates são diários. A necessidade de explicar, emendar e desdizer uma constante.


O mais recente episódio (atenção, escrevo à quarta-feira e ele é prolífico) prende-se com o programa das Novas Oportunidades. Passos Coelho decidiu insultar as centenas de milhares de portugueses que nos últimos anos se esforçaram por melhorar a sua formação. Não se coibiu, com a arrogância habitual, de passar, a todos, um atestado de ignorância. Mas, bem vistas as coisas, neste assunto o maior ignorante é mesmo ele.

Criado inicialmente pelo governo de Durão Barroso com o objetivo de certificar competências, foi bastante ampliado nos governos de José Sócrates no contexto da sua política de forte aposta na educação. Com dois grandes propósitos, "upgrade" escolar e profissionalização, o programa revelou-se um sucesso num país com um evidente défice de escolaridade e qualificação profissional. O que lhe valeu reconhecimento e aplauso europeu e internacional, nomeadamente da Unesco.

O reacionarismo local nunca gostou da ideia. Uns por elitismo, outros por atraso cultural. Os primeiros, na sua maioria senhores doutores, não gostam de ver a ralé aceder ao conhecimento. Os segundos, ainda não perceberam do que é feito o mundo de hoje e vivem noutro tempo, lá muito para trás. Vale a pena explicar.

A aceleração do conhecimento nas últimas décadas, muito impulsionada pelas novas tecnologias, veio alterar significativamente o contexto e o papel do ensino convencional. A escola, no sentido lato do termo, deixou de ser o único centro do saber, aquele sítio que guardava e transmitia o conhecimento disponível. Pelo contrário, a escola passou a ter dificuldade em acompanhar a rápida evolução dos saberes. Hoje, quem termina um curso depara-se frequentemente com o facto de ver aquilo que estudou tornado obsoleto por via dos constantes progressos da ciência. Estudar ao longo da vida tornou-se indispensável. Estudar de formas não convencionais também. O que significa estudar fora da escola através dos novos mecanismos de partilha e cooperação que a Internet, entre outras coisas, proporciona, ou por meio da própria experiência profissional adquirida no trabalho e na vocação. Tanto mais que as competências não se resumem mais ao ainda restrito e restritivo padrão académico. Novas áreas do saber não param de emergir. Novas aptidões também.

Isto é importante porque se no passado, a capacidade de inovação residia quase exclusivamente na dinâmica dos meios universitários, hoje está em todo o lado. Basta pensar como alguns dos grandes feitos tecnológicos e empresariais dos últimos tempos nasceram em garagens (caso da HP) pela mão de jovens que muitas vezes nem terminaram os seus cursos. O exemplo de Bill Gates é certamente o mais famoso.

Assim, novos modelos, como o das Novas Oportunidades, são determinantes para os processos continuados de aquisição de conhecimentos e competências. Representam uma oportunidade efetiva para muitos milhares de pessoas que de outro modo estagnariam. Sobrevalorizar alguns casos particulares de aproveitamento fraudulento, como sempre fazem os demagogos, é não perceber o que está em causa.

Passos Coelho claramente não percebe. Ainda jovem tem uma visão arcaica da educação. Considera que a requalificação das escolas é um luxo e que a profissionalização dos adultos um embuste. São "slogans" que lhe ficam mal e que só mostram impreparação. Como alguém disse, quem acha que a educação é cara, então faça as contas a quanto custa a ignorância.

Na ânsia de desfazer tudo o que Sócrates fez, Passos Coelho vai assim alinhando com as posições mais retrógradas. Hoje o PSD, que em tempos foi social-democrata, define-se como um partido contra a educação, a ciência e a cultura.

Por isso, com tantas e tão frequentes inoportunidades, talvez não fosse má ideia Passos Coelho ir até ao Brasil fazer companhia a Eduardo Catroga e esperar, na praia, pelo resultado das eleições. O país agradecia.

domingo, 8 de maio de 2011

DEMOCRACIA MADEIRENSE

Vale a pena ler o livro “JARDIM, A Grande Fraude” escrito pelo jornalista Ribeiro Cardoso. Todas as afirmações e denúncias passadas em todo o correr do livro estão bem estribadas, pelo que muito difícil é poder haver qualquer desmentido. Por isso mesmo não houve. E, assim sendo, aquilo é mesmo gerido como se fosse uma grande quinta, como um dono e suserano, com uma dúzia de capatazes, uma mão cheia de lambe botas, beneficiários de algumas bênçãos e benesses e o resto de servos reverentes e obedientes. Não vou fazer descrições de situações escabrosas, porque tudo aquilo é escabrosidade, mas não posso deixar de deixar uma nota.

Todos se recordam de quando dos acontecimentos que, em Timor, antecederam o referendo que deu caminho à independência do território e sobretudo depois do referendo e durante os quais houve massacres horrorosos e destruição massificada de habitações e quase todos os edifícios por toda a parte leste da ilha, todos se recordam que houve em Portugal um movimento de solidariedade e o próprio Estado português ajudou financeiramente aquela nossa ex-colónia e, depois da independência, estabeleceu programas de apoio para a reconstrução do país e formação de forças armadas, forças de segurança e procura de radicação da língua portuguesa no território. Nessa altura o que se assume como dono e senhor da Madeira vomitou a expressão de nem mais um tostão para Timor. E da Madeira não foi mesmo nenhum.

Recordamos agora a tragédia que bateu à porta da Madeira em 20 de Fevereiro de 2010, tragédia que nada teve a ver, em tamanho de destruição e de perdas de vidas humanas, com o ocorrido em Timor em 1999 e, depois de tudo, não posso deixar de transcrever o seguinte, do Conselho de Ministros de Timor:

“Na sequência das inundações que atingiram a Região Autónoma da Madeira, provocando dezenas de mortos e avultados prejuízos, o Conselho de Ministros, em acto de solidariedade a apoio para com o povo e autoridades daquele arquipélago português, aprovou a atribuição de ajuda financeira no valor de 750 mil dólares norte americanos, para ajudar a colmatar os estragos e perdas sofridas com as fortes chuvadas que assolaram a região”.

Mais comentários para quê? O parlamento nacional tem 4 deputados eleitos pela Madeira. Não se terão sentido anões políticos ao saberem disto?

José Pinto da Silva

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Aniversário da Secção do PS

ANIVERSÁRIO DA SECÇÃO DO PARTIDO SOCIALISTA

CALDAS DE S. JORGE

Já que a Secção elegeu dois delegados afectos à Moção de José Sócrates, e sendo a Coordenadora pessoa bem habilitada, deveria preparar uma intervenção no Congresso de molde a deixar marca. Claro que uma militante desconhecida é bem provável que a ponham a falar em hora desasada, com sala encadeirada, desmotivadora. Há sempre a hipótese de não comparecer à chamada, se não se vir motivação.

Se isso é um desafio, pois olhem que sou bem capaz de me aventurar. E como se faz para se lá chegar? Preparada a intervenção, no dia de sábado, dia das intervenções de apoio ou desapoio às moções, estar lá bem cedo e ser dos primeiros a dar entrada com a inscrição para intervenção. E esperar que o presidente da Mesa chame pelo nome. Fica o frete de ter de estar sempre por lá, para o caso de … ter sorte.

Se vier a ser chamada, vou anunciar do alto do púlpito que a Secção vai comemorar o 36º. aniversário da sua fundação, dia 29 de Abril, e aproveito para dali e naquele momento convidar o Secretário Geral para estar presente na comemoração, ou a mandar alguém a representá-lo. Imagino que seja tempo e palavras perdidas, mas ficará para a minha história, pelo menos.

Foi assim que surgiu a ideia de comemorar o aniversário da Secção e, mesmo sendo relativamente curto o tempo para promover a organização, ficou irreversível. Dar-se-lhe-á a dimensão possível e pedindo-se a colaboração de quantos queiram colaborar, com a certeza de que será sempre um evento singelo e pequeno, à dimensão da Secção.

Convidaram-se dirigentes distritais, começando pelo Presidente da Federação – os concelhios estão tomados pela reunião da Assembleia Municipal marcada para o mesmo dia – e outras figuras regionais cuja presença é esperada.

Anexo a convites entretanto impressos – foi o próprio convite divulgado nos blogues e na rede social Face Book – foi feito um convite especial a todos quantos foram eleitos para os primeiros órgãos da Secção e a todos foi entregue cópia da Acta da fundação. É nossa esperança que, qualquer que seja a posição ideológica ou mesmo partidária desses elementos, todos nos honrem com a sua presença, pois se recordam tempos de militância e intervenção que ficaram notórios na região. A Secção de Caldas de S. Jorge foi um exemplo de actividade.

Será aproveitada a oportunidade para nos curvarmos perante a memória de CINCO pessoas que integraram num ou mais mandatos os órgãos dirigentes da Secção e que, entretanto, nos deixaram. Corremos as Actas antigas para ser a nossa memória ajudada e colhemos os nomes de: ANTÓNIO FERREIRA DE OLIVEIRA (de Arcozelo); JORGE CASTRO MELO E SILVA (da Sé); JOQUIM FERNANDO MAGALHÃES SANTOS ( Fernando Mestrinho); JOSÉ FRANCISCO DE SOUSA (Zé Coto) e JOSÉ DA SILVA. A todos queremos homenagear, pois temos a certeza de que, lá onde estejam, olharão para nós com carinho, sentir-se-ão orgulhosos de terem pertencido a esta Secção do PS e TODOS estarão a torcer pela vitória do PS nas eleições de 5 de Junho, estando na frente o JOSÉ DA SILVA a erguer bem alto a bandeira que levou consigo, colocada bem do seu lado esquerdo.

A logística está a procurar alguma surpresa que dê mais brilho à comemoração. Todos quantos, de forma mais directa ou indirecta estiveram ligados ao PS de Caldas de S. Jorge, são carinhosamente esperados. Inscrevam-se.

José Pinto da Silva

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Mão-de-Obra e Produtividade

É de todas as regras da actividade produtiva que a mão-de-obra paga, deve ser remunerada em função do que é produzido em determinada unidade de tempo, tendo em consideração o que é acrescentado em valor ao produto acabado. Tendo naturalmente em conta, de antemão, o estabelecido na legislação geral como mínimo. Para trabalhador ou trabalhadora. E, se alguém não conseguir produzir o mínimo que compense o mínimo que a lei exige seja pago como remuneração, alguma medida é exigível. Ou tentativa de detecção dos tempos perdidos na execução de cada tarefa e correcção de modus faciendi, ou transferência para operação onde possa haver hipotética melhor adaptação ao ritmo de trabalho. Um trabalhador, se não produzir o mínimo, prejudica o empresário, prejudica a empresa e, por reflexo, deteriora as condições dos outros trabalhadores. E na organização moderna da produção, com linhas de produção e montagem, se um elemento se atrasa no ritmo, prejudica toda a linha. E, não se adaptando, não conseguindo fazer equipa, não pode continuar no grupo. Isto é incontornável, repudie-se ou aplauda-se a medida. Tem que poder ser dispensado.

Apregoa-se muito, e não é de agora, e talvez agora menos do que já foi, que as mulheres, fazendo o mesmo trabalho que os homens, auferem salários menores. Visto assim em cru, é absolutamente razoável o lamento ou protesto. Mas pode ocorrer que a trabalhadora, na sua banca, e enquanto nela está, execute trabalho igual e até produza igualmente. Mas não é possível deixar de ter em conta o critério da assiduidade e, dizem as estatísticas, as mulheres faltam ao trabalho mais horas, se comparadas com a generalidade dos homens. Porque têm de prestar cuidados à família, filhos, ou outros, ou porque padecem de doenças específicas que, mensalmente, as inibem de comparecer no posto de trabalho durante dois ou três dias. E sabe-se que, mesmo nos casos em que não aufiram a remuneração respectiva, a perturbação que a ausência causa na organização da produção tem custos que a empresa terá de incorporar no produto final.

Fala-se que cerca de 700 000 mulheres activas sofrem de uma doença específica delas chamada Endometriose que provoca dores e que, mensalmente impede as pacientes de trabalhar dois ou três dias. Elas não têm culpa, dirão. E é claro que não, mas também a empresa não tem e terá que fazer reflectir na remuneração o prejuízo das ausências. Caberá a outra entidade de apoio social suportar esses custos.

Muitos contratos colectivos de trabalho, instrumento legal que cada vez mais se torna obsoleto, porque, ao ser colectivo, proporciona determinadas condições de remuneração e de progressão ao activo e ao azelha, ao assíduo e ao calaceiro, ao interessado em progredir e ao que vive marimbando-se, muitos contratos já fixaram remunerações mais baixas para as mulheres. O legislador e os negociadores tiveram, por certo, em conta os factores da assiduidade e da produtividade.

Para as mulheres que se interessam pelo trabalho, que, nos respectivos postos, são diligentes, para as que, executando, de facto, as mesmas tarefas que os homens com produção média mensal igual, claro que se deverá aplicar o princípio de trabalho igual, salário igual. Nesses casos. E normalmente é cumprido.

Falando-se de produtividade, ainda que saindo um tanto do tema abordado acima, será de referir notícia saída recentemente. Dizia-se então que, por causa da imposição de redução da despesa nas empresas públicas (15%), a CP – Caminhos-de-Ferro – iria dispensar 861 funcionários. Como alteração de estrutura, encerrariam 3 ramais que pouco representavam no conjunto. Uma pergunta se impõe. Se a empresa vai funcionar com menos 861 trabalhadores, o que têm andado tanta gente a fazer na empresa? Quase novecentas pessoas são uma multidão que, de certeza, andava por ali a atrapalhar-se, uns de encontro aos outros. Estes, dispensáveis, elevavam para limites inaceitáveis, o custo da prestação do serviço ao público. Tinham emprego e remuneração, porque posto de trabalho não tinham de certeza. Numa exploração privada, há quanto tempo tinham sido dispensados? Claro que não teriam sido admitidos.

José Pinto da Silva

terça-feira, 22 de março de 2011

LIBERAL vs CENTRALISTA

Considero-me, e verdadeiramente sou, liberal. O ser humano deve ser livre de criar e transmitir aos que o rodeiam, e agora com a informação global, está globalmente rodeado, o fruto da sua criação, o fruto da sua iniciativa, o fruto do seu esforço. No vector político tenho por base orientadora as liberdades públicas: liberdade de pensamento e de expressão desse pensamento, liberdade de reunião e de associação, seguindo o princípio de que ser livre é ter o direito de fazer o que deve ser feito e não ser obrigado a fazer o que não deve ser feito.

Defendo intransigentemente o princípio do poder representado, o direito das maiorias saídas de eleições e constituídas para governarem segundo os seus princípios e programas, sem minimizar o respeito devido às minorias, constituídas, ou não, em forças de oposição. Tendo presente o ditame de que a liberdade de cada um termina quando colide e fere a liberdade do que está ao lado.

No campo económico sou apologista do princípio da livre iniciativa e aceito e defendo que o Estado bem pode largar mão de todo o sector empresarial que ainda detém, produtivo ou de serviços, deixando a sua exploração à criatividade e ao dinamismo da iniciativa privada, bem mais motivada para a inovação, pesquisa e acrescento de valor. Não me repugnaria e, pelo contrário, aplaudiria a privatização das empresas públicas, grandes ou pequenas, das áreas produtiva ou de serviços (REN, REFER, EDP, CTT, empresas públicas de transportes, todas) não fugindo o Estado ao seu dever de regulador e de fiscalizador, nem à obrigação de estatuir regras muito bem definidas e de fácil compreensão pelo público utilizador dos serviços prestados. Faz algum sentido que as empresas públicas de transportes acumulem défices de milhares de milhões de euros e tenham os gestores a receber prémios de desempenho? Não cheira a que anda por ali mau governo, má programação, má gestão, enfim? Terão que adaptar as despesas previsíveis às previsíveis receitas. Parte-se, desde logo, do princípio de que o Estado paga a tempo e horas as indemnizações compensatórias. As empresas privadas do sector não funcionam com resultados positivos?

À minha “sanha” privatizante concederia duas excepções. Pela bandeira e mais pela especificidade dos serviços prestados: A Caixa Geral de Depósitos que, mesmo agindo como banco comercial/concorrencial, ajudará a estabelecer paradigmas de actuação da banca em geral, e a RTP pelo impacto que fez calar no público, até por ter sido o único canal durante muitos anos. Privatizar o canal 2? Problema que deverá ser estudado ao detalhe pelo poder e pelos reguladores.

Par contre, dois sectores há em relação aos quais sou absolutamente centralista e apologista da generalização estatal. A saúde e a educação. Numa e noutra destas actividades, o privado teria, no meu ponto de vista, uma função meramente supletiva e, sendo um negócio, funcionaria como tal e o empreendedor prospectaria os seus clientes, um dos quais poderia ser o Estado para situações pontuais, onde e quando o cliente (Estado) não tivesse no mercado oferta própria que satisfizesse o público consumidor. Todos os alunos, (de toda a carreira discente) e todos os carecidos de cuidados de saúde. Exactamente como a segurança social. Cabe sempre ao Estado garantir o apoio social e garantir a cobrança das taxas que a sustentam, sem prejuízo de cada qual poder, junto do sector privado, constituir fórmulas de acumular meios de apoio complementar, via poupanças colocadas a render com valores e prazos contratados.

E vou acrescentar o porquê desta minha opção ideológica.

Não precisa de grande prova, porque evidente, o facto de, no sector empresarial, o Estado ser incapaz de gerir rentavelmente, ou de tirar o melhor rendimento das capacidades instaladas. Depois há sempre a tendência para, nas empresas estatais, se distribuírem benesses a torto e a direito, se pagarem salários exorbitantes, sobretudo aos conselhos, e, como não dói, (o dono é impessoal) as administrações, sem contraposição, cedem, à primeira, a reivindicações quantas vezes irrealistas e impossíveis de consentir numa gestão que objective proveitos, ou tenha por fim prestar mais e melhores serviços pelo menor custo possível. Exemplos: Vamos ao sector dos transportes. Há empresas privadas que sobrevivem, e mesmo crescem, prestando serviços sem reclamações. As empresas públicas de transportes devem milhares de milhões de euros, os serviços são o que calha, os trabalhadores, além de salários léguas acima dos praticados no privado, tem “direito” a transportes gratuitos para eles e família, (e se calhar o lulu e o periquito) onde quer que se desloquem, para além de diversos favorecimentos especiais fruto de acordos, quantas vezes, impostos a administrações tíbias que deram costas às chatices. Quereis dez? Tomai lá quinze e não aborreçam. Um desabafo do P. da Câmara de Lisboa:” Às vezes vejo na rua do Ouro engarrafamentos brutais de autocarros vazios”. Será preciso mais?

Causa-me engulhos que na educação e na saúde, é meu entendimento e é de todos os que só pretendem a prestação dos melhores serviços, que o Estado não alargue mais e mais a oferta de bons meios, de molde a deixar à iniciativa privada um mercado residual de qualidade diferente que fosse procurada por quem tem meios para a pagar e queira essa qualidade diferente, pagando-a. Sem nenhuma interferência do Estado, para além da fiscalização que deve fazer em todas as actividades empresariais.

Quem manda e quem é mandado, quem trabalha e quem é tratado, não se interroga ao ver que as clínicas de meios auxiliares de diagnóstico crescem como cogumelos em chão lento e não causa engulhos que o serviço de hemodiálise esteja dominado por uma empresa? Será que a capacidade instalada nos hospitais está bem aproveitada, ou estamos a fazer exames nos privados, estando parados os equipamentos hospitalares? E se as clínicas (mais ou menos poli) se instalam não importa onde, porque é que o Estado não instala equipamentos (radiologia, colheitas de sangue, ecg, etc. etc. nos Centros de Saúde e até em algumas Extensões de Saúde?

Também enquanto me não explicarem muito bem, não compreenderei essa coisa das PPP no campo da saúde. A um Estado que tem uma dívida sem medida, não valeria mais pedir mais algum e construir por sua conta os hospitais? Há falta de médicos? Fazer importação a partir de onde os houver. As parcerias para barragens e para estradas, vá que não vá, mas para a saúde? Terei que ser mais bem esclarecido.

Utilizar a receita da venda do sector público empresarial, para aumentar a oferta nos sectores da Educação e da Saúde e, nestes mundos, colocaria gente sabedora e responsável, impondo-lhes regras bem definidas. Com objectivos a cumprir e com penalizações para os não cumpridores.

José Pinto da Silva

segunda-feira, 21 de março de 2011

Geração à Rasca - A Nossa Culpa

O texto que segue é da autoria do escritor Moçambicano MIA COUTO e, pela importância e actualidade o transcrevo, com a devida vénia.


Um dia, isto tinha de acontecer. Existe uma geração à rasca? Existe mais do que uma! Certamente!
Está à rasca a geração dos pais que educaram os seus meninos numa abastança caprichosa, protegendo-os de dificuldades e escondendo-lhes as agruras da vida.
Está à rasca a geração dos filhos que nunca foram ensinados a lidar
com frustrações. A ironia de tudo isto é que os jovens que agora se dizem (e também estão) à rasca são os que mais tiveram tudo. Nunca nenhuma geração foi, como esta, tão privilegiada na sua infância
e na sua adolescência. E nunca a sociedade exigiu tão pouco aos seus jovens como lhes tem sido exigido nos últimos anos.

Deslumbradas com a melhoria significativa das condições de vida, a minha geração e as seguintes (actualmente entre os 30 e os 50 anos) vingaram-se das dificuldades em que foram criadas, no antes ou no pós 1974, e quiseram dar aos seus filhos o melhor. Ansiosos por sublimar as suas próprias frustrações, os pais investiram nos seus descendentes: proporcionaram-lhes os estudos que fazem deles a geração mais qualificada de sempre (já lá vamos...), mas também lhes deram uma vida desafogada, mimos e mordomias, entradas nos locais de diversão, cartas de condução e 1º automóvel, depósitos de combustível
cheios, dinheiro no bolso para que nada lhes faltasse. Mesmo quando as expectativas de primeiro emprego saíram goradas, a família continuou presente, a garantir aos filhos cama, mesa e roupa lavada.
Durante anos, acreditaram estes pais e estas mães estar a fazer o melhor; o dinheiro ia chegando para comprar (quase) tudo, quantas vezes em substituição de princípios e de uma educação para a qual não
havia tempo, já que ele era todo para o trabalho, garante do ordenadocom que se compra (quase) tudo. E éramos (quase) todos felizes.

Depois, veio a crise, o aumento do custo de vida, o desemprego, ... Avaquinha emagreceu, feneceu, secou.

Foi então que os pais ficaram à rasca. Os pais à rasca não vão a um concerto, mas os seus rebentos enchem Pavilhões Atlânticos e festivais de música e bares e discotecas onde não se entra à borla nem se consome fiado. Os pais à rasca deixaram de ir ao restaurante, para poderem continuar a pagar restaurante aos filhos, num país onde uma festa de aniversário de adolescente que se preza é no restaurante e vedada a pais. São pais que contam os cêntimos para pagar à rasca as contas da água e da luz e do resto, e que abdicam dos seus pequenos prazeres para que os filhos não prescindam da internet de banda larga a alta velocidade, nem dos qualquercoisaphones ou pads, sempre de última geração.

São estes pais mesmo à rasca, que já não aguentam, que começam a ter de dizer "não". É um "não" que nunca ensinaram os filhos a ouvir, e que por isso eles não suportam, nem compreendem, porque eles têm
direitos, porque eles têm necessidades, porque eles têm expectativas, porque lhes disseram que eles são muito bons e eles querem, e querem, querem o que já ninguém lhes pode dar!

A sociedade colhe assim hoje os frutos do que semeou durante pelomenos duas décadas.

Eis agora uma geração de pais impotentes e frustrados. Eis agora uma geração jovem altamente qualificada, que andou muito por escolas e universidades mas que estudou pouco e que aprendeu e sabe na proporção do que estudou. Uma geração que colecciona diplomas com que o país lhes alimenta o ego insuflado, mas que são uma ilusão, pois correspondem a pouco conhecimento teórico e a duvidosa capacidade operacional. Eis uma geração que vai a toda a parte, mas que não sabe estar em
sítio nenhum. Uma geração que tem acesso a informação sem que isso signifique que é informada; uma geração dotada de trôpegas competências de leitura e interpretação da realidade em que se insere.
Eis uma geração habituada a comunicar por abreviaturas e frustrada por não poder abreviar do mesmo modo o caminho para o sucesso. Uma geração que deseja saltar as etapas da ascensão social à mesma velocidade que queimou etapas de crescimento. Uma geração que distingue mal a diferença entre emprego e trabalho, ambicionando mais aquele do que este, num tempo em que nem um nem outro abundam. Eis uma geração que, de repente, se apercebeu que não manda no mundo como mandou nos pais e que agora quer ditar regras à sociedade como as foi ditando à escola, alarvemente e sem maneiras.
Eis uma geração tão habituada ao muito e ao supérfluo que o pouco não lhe chega e o acessório se lhe tornou indispensável. Eis uma geração consumista, insaciável e completamente desorientada.
Eis uma geração preparadinha para ser arrastada, para servir de montada a quem é exímio na arte de cavalgar demagogicamente sobre o desespero alheio.

Há talento e cultura e capacidade e competência e solidariedade e inteligência nesta geração?
Claro que há. Conheço uns bons e valentes punhados de exemplos! Os jovens que detêm estas capacidades-características não encaixam no retrato colectivo, pouco se identificam com os seus contemporâneos, e nem são esses que se queixam assim (embora estejam à rasca, como todos nós).
Chego a ter a impressão de que, se alguns jovens mais inflamados pudessem, atirariam ao tapete os seus contemporâneos que trabalham bem, os que são empreendedores, os que conseguem bons resultados
académicos, porque, que inveja!, que chatice!, são betinhos, cromos que só estorvam os outros (como se viu no último Prós e Contras) e, oh, injustiça!, já estão a ser capazes de abarbatar bons ordenados e a
subir na vida.

E nós, os mais velhos, estaremos em vias de ser caçados à entrada dos nossos locais de trabalho, para deixarmos livres os invejados lugares a que alguns acham ter direito e que pelos vistos - e a acreditar no
que ultimamente ouvimos de algumas almas - ocupamos injusta, imerecida e indevidamente?!!!

Novos e velhos, todos estamos à rasca. Apesar do tom desta minha prosa, o que eu tenho mesmo é pena destes jovens. Tudo o que atrás escrevi serve apenas para demonstrar a minha firme convicção de que a culpa não é deles. A culpa de tudo isto é nossa, que não soubemos formar nem educar, nem fazer melhor, mas é uma culpa que morre solteira, porque é de todos, e a sociedade não consegue, não quer, não pode assumi-la. Curiosamente, não é desta culpa maior que os jovens agora nos acusam. Haverá mais triste prova do nosso falhanço? Pode ser que tudo isto não passe de alarmismo, de um exagero meu, de
uma generalização injusta. Pode ser que nada/ninguém seja assim.

José Pinto da Silva

quarta-feira, 16 de março de 2011

NOTAS

CENSOS 2011

Logo que abriu o processo, candidatei-me, via NET, a recenseador para o CENSOS 2011, agora em curso.

Apesar de ter lido algures que, desta vez, seria exigível que os candidatos estivessem habilitados com o 12º. ano e que se exigia também que soubessem línguas estrangeiras, entre as quais espanhol e inglês. Eu consigo arranhar um pouco de ambas. Tive depois indicação de que, em reformados e subsidiados por desemprego, haveria algumas implicações. Não curei de me certificar de tudo e, para isenção de chatices, também via Net, manifestei interesse em anular a minha candidatura.

Eu sabia de ciência certa que, havendo mais candidatos do que os necessários em cada circunscrição, seria a Junta de Freguesia quem teria influência na escolha dos candidatos. Que mais dizer?…

Quando, na Câmara, o meu nome foi aflorado (porque constava lá a inscrição) o (in)qualificado presidente da junta de Caldas de S. Jorge terá desabafado (cito o que ouvi de terceiro): “Arrumem o nome desse filho da p.. pipipipi)”. Quanto ao chamamento só digo que sou de origem diferente da dele. E tive uma formação diferente também. Muito diferente. E direi que está louco se me mede por ele. Fiz, em 2001, bom serviço e gostei dos contactos e foi SÓ essa razão que me levou a candidatar-me. Longe de mim pensar no que poderia ganhar. Se tivesse sido seleccionado, iria ganhá-lo, receberia fruto de trabalho. Outros chulam o bem público sacando sem nada fazer. A quem me referirei?

BLOQUEIO DOS CAMIONISTAS

A tentativa de bloqueio das estradas por banda de empresários de camionagem terminou e foi bom. Mas aquele dia de tentativa de criar problemas ao abastecimento público, mostrou que muitos deles são bem mais CARROCEIROS do que camionistas e muito menos empresários. Se querem parar que parem, eventualmente em definitivo, mas deixem trabalhar quem prefere trabalhar.

Querem gasóleo mais barato? E um vendedor comissionista que faz dezenas e dezenas de milhar de KM? Não teria o mesmo direito, ou talvez mais? O Governo aceitou alguma reivindicação e acho que não devia. De resto o PM no decorrer da entrevista que deu ontem deixou claro: Não haverá paragem do país “Porque nós não deixaremos”. Não será terrorismo apedrejar que preferiu trabalhar? Até tiros houve? A nossa autoridade (GNR) teve uma actuação de alguma firmeza e isso talvez tenha sido uma boa aula.

FUNDO DE DESEMPREGO

É voz ouvida pelos cafés, pastelarias e outras tertúlias que, por estas bandas e, de certeza, pelas bandas todas, se verificam situações curiosas, que deixam de o ser pela não raridade. Em pequenas empresas de raiz familiar, sem ou quase sem empregados, um dos cônjuges de um casal –o outro será o titular do negócio – é inscrito como trabalhador dessa empresa e, zás, declara durante o tempo necessário um salário elevado e logo que atinge o fundo de garantia, é “despedido” e entra no “ROUBO” do subsídio de desemprego. O que é dito, em voz alta, às vezes com a mão orelhada para simular segredo, é que há vários casos conhecidos, de gente “DE BEM” (até dizem socialaite) e que o modus agendi está generalizado. Claro, recebem o subsídio e, como muitas vezes o negócio é em casa, sempre vão estando por lá e fazem o que sempre fizeram. Ganha-se por dois carros.

Numa época de grandes necessidades, com tanta gente verdadeiramente desempregada, atitudes que tais, a confirmarem-se, e quem as pode confirmar é a fiscalização, são muito mais vergonhosas e, então se, como se diz, sai de gente que não precisa, a coisa fia ainda mais fino. Rouba-se só porque se rouba. As autoridades terão que averiguar se tal é possível e se é verdade e, a ser, as penas deveriam fazer mesmo doer, indo ao limite do encerramento do estabelecimento e à interdição de exercício de qualquer actividade empresarial para o empregador e “desempregado”.

TAXAS MODERADORAS

Em Abril de 2002, um cidadão originário de cá, mas cá não residente à época e agora a residir no estrangeiro, foi à urgência do Hospital da Feira. Foi atendido como é normal ser-se e, no final, dando-lhe alta, mandaram-no para casa. Não lhe apresentaram contas, nem ele as pediu. Naturalmente. Imagine-se que, por estes dias, 8 anos depois da ocorrência, chega a um familiar uma nota de débito de € 16,24, que inclui urgência, mais análises, mais radiografia, etc. O familiar perguntou-me o que deveria fazer e eu disse-lhe que o mais que deveria fazer era devolver, porque o “devedor” está no estrangeiro. - Que diacho, a pessoa pode ter problemas, acho que vou lá e pago isso e que se lixe. - Se é isso que entende, ao menos não faça a viagem, pague por Multibanco. - Não tenho nada disso, vou lá. - Dê-me cá o dinheiro que eu pago com o meu cartão. E assim foi. Foi a factura liquidada, mesmo que porventura não devida. O devedor não pôde ser contactado.

Fará algum sentido o Hospital mandar cobrar uma “dívida” de € 16,24 oito anos depois? Porque não é feita a cobrança no acto, ou pelo menos porque é que não é apresentada a factura com indicação de prazo para liquidação?

José Pinto da Silva